domingo, 19 de junho de 2011

Autobiografia - Mirian Ghizoni Pereira Silva


Sou a quinta filha de um universo de seis. Cresci em meio à idéia de que estudar era essencial para a evolução do Ser humano. Quando penso em primeira leitura, me vem a memória de um momento em que estava ao lado de meus irmão, sentada em uma cama, com um livro aberto, imitando os irmãos que estavam lendo, fingindo que entendia o que via. Em algum momento, me dei conta que estava com o livro de cabeça para baixo, olho para os lados tentando perceber se alguém percebeu meu engano. Viro o livro e sigo “lendo”. Aos 7 anos, com a entrada na escola, aprendi a ler com o livro: “Os três Porquinhos”. Quando escrevi a primeira carta, foi endereçada à minha irmã que estudava em Florianópolis. Nesta época eu morava em Tubarão. Escrevi a carta contando a História dos três porquinhos. Na realidade eu fiz uma copia do livro. Ainda não conseguia expressar meus pensamentos na escrita espontânea. 

Dos 7 aos 12 anos, tenho pouca recordação de minhas leituras. Sei que escondida lia as fotonovelas em quadrinhos de minha irmã. E o universo dos gibis da Disney também eram leitura constante. Depois dos 12 anos, li muito e descobri os poemas. “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry me emocionou. Me encontrei com Gabriel Garcia Marques através do livro “Cem anos de Solidão”.

E foi solidão que caracterizou os 15 anos, quando mudei de Tubarão para Florianópolis. Meus dias e noites eram recheados pelas histórias dos mais diversos autores. Dos 15 aos 18 anos, li “Água Viva” de Clarice Lispector dentre outros livros dela, chorei e me indignei lendo “O Meu pé de Laranja Lima”, vi a natureza de uma forma diferente com “O Menino do Dedo Verde”, li praticamente quase todos os livros de Jorge Amado. Lembro que “Tereza Batista Cansada de Guerra” me fez passar a noite toda envolvida em sua história. Meus irmãos saíram a noite, foram para boate e eu fiquei lendo. Eles voltaram de manhã e eu continuava acordada lendo. A leitura me tomava por inteira, não conseguia parar. Li também Machado de Assis, Capitu e bentinho de “Dom Casmurro” que trouxe para o Instituto Estadual de Educação um debate, acalorado e rico entre as turmas, onde se questionava como em um tribunal com a defesa ou acusação se Capitu traiu ou não Bentinho. 

Entrando no mundo universitário, um livro que relata o funcionamento de um mundo onde o governo controla as massas a seu bel-prazer, trouxe um abrir de olhos para o questionamento do poder autoritário e o medo embutido no ser humano que se submete aos mandos e desmandos de uma política pautada no interesse pessoal. Os mistérios das obras de Ágata Cristhie foram digeridas em muitas noites e madrugadas, bem como os Best sellers de Sidney Sheldon, Harold Robbins, Danielle Steel, Stephen King, dentre muitos outros. “Fernão Capelo Gaivota” me fez namorar Richard Bach e dele tem um pensamento que norteia meu viver “Eis um teste para verificar se sua existência na terra está cumprida: Se você está vivo, ela não está”. 

Ápós a Universidade, aos 22 anos, com a autonomia financeira, me associei ao círculo do livro e cada vez mais a leitura fazia parte de meu dia a dia. “O Nome da Rosa” me fez conhecer Umberto Eco e refletir sobre a livre circulação do conhecimento e a liberdade do que se quer estudar. Leituras de caráter espiritual, aos 25 anos, me encantavam. Ao mesmo tempo em que me envolvia com o desenvolvimento da espiritualidade, lia também os clássicos de literatura romântica de Barbara Cartland. Esta leitura, todas as noites era meu ultimo ato, ia para um mundo fantasioso e meu dia e as preocupações inerentes a ele deixavam de existir. O sono vinha tranqüilo. Nada a reter desta leitura, tanto que poderia depois de algumas semanas pegar o mesmo livro para reler e era como se estivesse lendo pela primeira vez. A temática era sempre a mesma, mudava o cenário e os personagens com suas histórias pessoais. Mais ou menos neste período, li “O Alquimista” de Paulo Coelho, e este livro, em um momento de busca espiritual e da Verdade, foi muito importante para mim, o que me levou a buscar ler outros do mesmo autor, até que à terceira ou quarta obra dele, se tornou repetitivo, nada mais tinha a acrescentar, era uma receita já conhecida. Leituras com qualidade psicológica, passaram a fazer parte de meu universo. Freud, Lacan, Melanie Klein, Jung, Sartre, Spitz, Virgínia Satir, Peggy Papp, Watzlawick, Andolfi, Capra, Irvin Yalom, e outros tantos pensadores sistêmicos. 

Minha busca passou por muitos momentos, desde grupos de espiritualidade ligados a igreja à astrologia, reiki, feng shue. Era a busca incessante por respostas enquanto Ser que anseia em saber sua razão existencial. E J.R.R. Tolkien e Dan Brown também me fizeram viajar. Durante um período grande, enquanto meus filhos eram pequenos, o universo da leitura infantil , desde livros de panos, plásticos, com música, fantoches eram o cotidiano das horas noturnas que embalavam o adormecer . Assim como teatros e filmes infantis. E até hoje, vou aos cinemas 3D, usando a desculpa que acompanho meu filho, mas quem convida e avisa o que está passando sou eu. Filmes, esta é minha paixão. Adoro ter um tempo livre, e poder desfrutar de um bom filme. Meus prediletos são os dramas familiares e psicológicos. 

A música fez parte de minha vida desde a adolescência, meu primeiro salário comprei um toca-discos (bolachão). Desde a viola de Renato Teixeira, Geraldo Azevedo., a música de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, ao baianos Gil, Caetano, Gal e Bethânia, Chico Buarque, Vinícius, a voz de Simone, Milton nascimento, Elis Regina, Ney matogrosso e tantos outros. Ouço de tudo um pouco, menos rock e tecno. Sempre que alguém da música popular brasileira vinha a Florianópolis, lá estava eu presente. Tive a oportunidade de ir aos Doces Bárbaros, Ver Milton cantar ao ar livre, perto do mercado público, ouvir Simone junto com Toquinho ao Violão em um show intimista na sede do Lira, quando ela era uma desconhecida, ouvir Zizi Possi, Ney Matogrosso e pura magia ouvir Oswaldo Montenegro declamando um poema-música “Metade”. Vou ao teatro e shows, sempre que tenho a possibilidade. Amo os dois, Tenho que escolher muitas vezes entre ir um ou outro, pois o que limita é a disponibilidade financeira. Arte neste país, ainda é uma opção que está ao alcance de poucos Por isso, quando penso em um livro, penso em livro aberto e a palavra empréstimo, pois um livro para mim, só tem vida quando ele está nas mãos de algum leitor, não em prateleira
Ao fazer esta autobiografia, fiquei refletindo sobre as escolhas que fazemos ao longo da vida e em todo momento. Sabemos que cada escolha que fazemos nos torna responsáveis por aquilo que deriva de nossa escolha, esta mesma escolha nada pode nos assegurar. Isso nos torna conscientes do quanto somos co-criadores de nossa própria existência, que é feita a cada momento de infinitas possibilidades. Nos é imposta sempre a condição de “escolhedores”. E ao escolhermos um livro, escolhemos também compartilhar o pensamento do autor, sua concepção de mundo, de homem, das relações, que no momento da leitura será a lente através da qual eu observo os fenômenos. Ao mesmo tempo em que uma concepção possibilita uma visão, limita nosso olhar. E claro que a cada livro lido, tem centenas de não lidos, isso me leva a pensar no aprendizado das perdas, no aprendizado do desprendimento dos caminhos não percorridos. E que cada livro foi um construtor ou um agente de (trans)formação no meu caminho pessoal.

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