Antonio Luiz Schalata Pacheco
Todo ser humano é uma criatura influenciável e todos somos potencialmente críticos. Então, todo crítico é uma criatura influenciável?
Não nos preocupemos em responder tal indagação à luz da lógica, deixemo-la terminantemente fora de nosso cabedal argumentativo.
É fato que todos somos influenciáveis, a propósito, só se deixa educar aquele que está disposto a rever seus próprios conceitos. Assim, do menos ao mais informado, em maior ou menor grau, todos somos passíveis de nos dobrarmos aos discursos que nos soam bem elaborados. Da mesma forma, a capacidade crítica é algo inerente ao ser humano. Foi o desenvolvimento dessa habilidade que nos destacou dentro do reino animal.
A mídia dominante – e por isso é dominante – é ciente da nossa vulnerabilidade ao discurso impactante. Sobremaneira, o interesse despertado por uma informação com conotação negativa é muito maior do que se ela prezasse por destacar outros pontos. Dá muito mais audiência falar da queda de um ministro do que da ascensão daquele que lhe vai substituir. É muito mais interessante dizer que fulano perdeu um pênalti, do que atribuir sucesso ao goleiro. Por outro lado, o indivíduo capaz de criticar julga gozar de certo status social. Respiram-se ares superiores ao proferir críticas, sejam elas quais forem.
A mídia forma um séquito de agentes, aos quais chamo maliciosamente de crítico-vomitantes. São uns seres acríticos, insipientes, uns quase-papagaios - digo quase para não criar problemas com os ambientalistas efetivamente mais críticos. São agentes perfeitos na ação da mídia em formar o censo comum, ouvem e propagam aquilo que ouvem sem questionar coisa alguma. O crítico-vomitante alardeia e avulta os pontos negativos de sua família, do seu local de trabalho e, especialmente, do seu país – como adoram criticar o Brasil, essas criaturas. Invariavelmente atuam dentro de uma mesma linha, um discurso tendencioso que converge para as últimas manchetes do Jornal Nacional ou outro veículo globo-vizinho.
O crítico-vomitante se vale de frases feitas, de posicionamentos recortados. É capaz de repetir até receita de bolo, desde que esta satisfaça a sua necessidade de malhar o pau em alguém ou alguma coisa. Ele se perde quando precisa argumentar; mas, por outro lado, não perde a pose, não desce daquele patamar em que se rotulou superior e trata de ficar repetindo seu posicionamento – que vontade de chamá-los de papagaios...
Diante dessa interpretação que a massa faz da crítica, da falta de legitimidade social de uma crítica efetiva, eu tenho me esquivado dos debates com muita frequência. Não que seja incapaz de argumentar ou coisa assim, mas definitivamente não quero ter problemas com os citados ambientalistas.
A crítica é muito mais que esse ato equivocado de criticar tão somente, de malhar o pau, de vestir discursos não avaliados. A crítica é um movimento articulatório constante e harmonioso entre argumentação e posicionamento, entre avaliação e tomada de decisão. A crítica é dinâmica, apesar de precisar repousar em bases sólidas. Agir criticamente é buscar os bastidores e não apenas contemplar maravilhado o espetáculo propriamente dito. Ser crítico é, antes demais nada, refutar a crítica banal.
Em suma, todo crítico é influenciável, mas apenas na medida em que se inclina a rever para melhor estabelecer os conceitos que consubstanciam seu posicionamento crítico, na medida em que se fundamentam. O crítico não engole a mídia, por isso não vomita suas meias verdades!



