Do Bê-a-Bá à Torre de Babel
Autobiografar-se não é uma tarefa muito simples, implica conhecimento de mundo e conhecimento de si mesmo. Todo processo de conhecimento é produzido e constituído pela linguagem que, na sua função simbólica e semântica, permite-nos representar o mundo e ser memória de si mesma, no jogo das representações sociais, por meio de factíveis leituras. Contudo, todo esse conhecimento é produzido por práticas de leituras que adquirimos em determinado espaço/tempo histórico de nossas vidas, que podem perpassar desde o ato de decifrar signos gráficos que traduzem a linguagem oral à maneira de compreender um acontecimento, infundindo um caráter mecanicista ou questionicista ao ato de ler.
Partindo dessas concepções, em que podemos considerar o ato de ler um diálogo intrínseco, histórico, político e particularmente complexo e singular, é que concebo a minha prática leitora atual como o produto constituído pelas condições que me produziram como leitor. E a melhor forma de representar a minha posição de sujeito-leitor em meu decurso nesta vivenda cósmica, parece-me que é mostrar minhas memórias e meu hic et nunc, fazendo o Amarcord (título do filme de Fellini/1973, uma referência à tradução fonética das palavras "io me ricordo") do meu tempo.
Um dos momentos mais marcantes da vida de toda criança é quando, num determinado dia, ela soletra o bê-a-bá e depois... começa a ler. Li aos 40 anos. Alfabetizei-me aos 7. Meus pais, entre os 7 e 12 anos, me legaram a contação oral de histórias marcada por fantasias e medos e pela falta de contato com o livro. Entre esse tempo, minha escola reforçou a fantasia, os temores e os sonhos através das leituras lineares de Perrault com o Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, O Gato de Botas, Pequeno Polegar; dos Irmãos Grimm da Branca de Neve, A Gata Borralheira e de João e Maria; de Andersen do Patinho Feio e de La Fontaine do Lobo e o Cordeiro. Consequentemente, somados, o que herdei foi a capacidade de associar a leitura à uma caixa de Pandora...
Do bê-a-bá à torre de Babel, as minhas vivências de leituras não ultrapassaram aquilo que me foi exigido pela escola e, sobrevivendo à caixa de Pandora, meu literário pré-construído pode ser contado num passageiro Amarcord.
Estive lá - tantas vezes quantas o tempo permitiu-me e sempre que meus sonhos impulsionaram minha história de vida. Dos tempos da Revista Cruzeiro às páginas da Manchete, do Repórter Esso – “Testemunha Ocular da História” -, dos quais fulminavam notícias que pairavam sobre nossas cabeças, da mesma forma como nos ensinavam Ciências e aprendíamos História.
Estive lá - na Guerra do Vietnã - a primeira guerra da televisão -, na crise do petróleo - o fim da gasolina barata mudando o mundo industrial -, nas aulas de Ciência – das quantas partes está divido o corpo humano ou das quantas partes uma planta é constituída -, nas aulas de Língua Portuguesa - do varie os termos da oração -, e nas aulas de história – do ponto na pedra -, estive lá, fazendo uma história que precisava ser contada, analisada e reeditada.
Estive lá - lá em cima, no entorno de um cosmo de cor azul anil - na corrida espacial - na subida do homem à Lua. Aqui na terra - na política e na ciência prometendo dias melhores - da Terra de Gigantes, na alusão aos movimentos políticos armados que lutavam contra regimes repressivos – no prenúncio da democracia, 1964 -, com a esperança de vida in vitro – quando nascia, a 25 de julho de 1978, na Inglaterra, o bebê de proveta. Iniciavam-se ali as mais emocionantes aventuras científicas e políticas das décadas de 60/70.
Estive lá – sobretudo, num presente que não desenhava um futuro tecnológico. Para mim, os acontecimentos ainda não se faziam significar e, não significando, não produziam sentidos e, não produzindo sentidos, não projetavam outros itinerários. Não significando, não produzindo sentidos - não me haviam autonomizado na galáxia de Gutenberg - e, não projetando itinerários, tampouco, haviam-me sinalizado a galáxia planetária.
E cá estou. Entre a nebulosidade provocada pela caixa de Pandora e pelas múltiplas leituras constituídas nessa torre de Babel ciberespacial.



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