segunda-feira, 27 de junho de 2011

Biografia literária

Autobiografia literária

Janaina Santos

Para escrever uma autobiografia das minhas leituras, pensei em fazer um recorte específico e optei por utilizar o recorte de mídia impressa, focando nas leituras de jornais. Quando criança, lembro-me do cheiro forte dos jornais e dos meus dedos sujos de tinta preta. Adorava ver as tirinhas e gostava de saborear leituras despreocupadas, o que ainda não se modificou de todo.
Com o passar do tempo, outros temas foram atraindo meu interesse e durante o ensino fundamental, adorava recortar e guardar as matérias relacionadas à dança, à história da dança e ao mundo das artes. Guardava estas páginas como tesouros que na maior parte das vezes acabariam intocados em uma caixa cheia de outros tesouros da minha juventude, como flores secas, fotografias e bilhetinhos. Tudo o que tornava minha vida sonhada real estava lá.
Durante o Ensino Médio passei a ver o mundo com olhos mais atentos e a dar mais importância aos fatos históricos que aconteciam, horrorizando-me quase todos os dias com a fome e a desiguladade existentes. Continuava guardando páginas, mas agora de leituras densas e na maior parte das vezes trágicas, embora a arte ainda continuasse sendo o meu mundo. Guardava-as com a esperança de que um dia teria condições de resolver aqueles problemas, a esperança de conseguir modificar o mundo, ou criar um outro mundo. Mais ou menos por esta época começei a questionar o poder da mídia e a sua capacidade de informar e de formar opinião de forma desinteressada, o que aconteceu principalmente após a leitura de 1984, de George Orwel.
Durante a Graduação e a Pós-Graduação, leituras mais críticas e atentas foram aos poucos sendo incorporadas e continuaram muitas vezes sendo guardadas nas minhas caixas de tesouros. Mas agora os recortes eram específicos, embora seja da minha natureza me interessar por quase tudo o que há em um jornal, assim como me interesso por quase tudo o que existe no mundo. Apenas pulava direto as páginas de televisão, esportes e o obituário.
Recentemente tenho mantido esta tendência, embora com o passar dos tempos tenha algumas vezes tido o interesse em ler o obituário, preocupada com algumas pessoas conhecidas e já em idade avançada. Atualmente porém, não guardo mais as páginas de jornal lidas, pois por falta de espaço físico tive que eliminar muitas caixas de tesouros. É claro que a tecnologia facilitou o meu trabalho pois posso voltar a ler um conteúdo interessante quantas vezes quiser. Mas mais do que jornais, amo os livros e o silêncio, assim como a música e a voz do meu filho.

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