Lagoa da Conceição – A aldeia cobiçada
Ninguém passa impunemente pela Lagoa da Conceição. Ou você tem uma overdose do divino-natural ou você se nutre de uma involução selvagem. Minha história com a Lagoa da Conceição começou há exatamente cinco anos atrás.
Mas como não me desamarrar de Porto Alegre e não morrer de amores pela Lagoa? A Lagoa não é evidentemente apenas um bairro. Ao mesmo tempo em que é um éden, em cujo centro um espelho azul-celeste raia com o arco-íris do sol da manhã - brado sedutor - tanto para a malícia dos olhos como para a mansidão da alma, também, é a aldeia urbana constituída por muitos forasteiros. Ah, se estou certa, na sua maioria, estes são gaúchos e paulistas, mas o que faz a diferença mesmo nesta Aldeia são os nativos, a manezada.
A manezada, que de mané não tem nada, enfeitiça com seu sotaque do falar ligeirinho – do segue reto toda vida, do poish poish e, também, surprende com suas formas de organização social e seus hábitos cotidianos. Aliás, organização aqui na Lagoa é que não há, ou até há, mas à moda aldeana, lei parece não existir, mas infelicidade por aqui, também, parece não passar.
Nas ruas, o trânsito é organizado pela tolerância dos motoristas. Até acho que neste quesito, o pessoal se organiza muito bem. Tão bem que, na alta temporada de verão, quem entra não sai e quem sai quer voltar para nunca mais sair. Mas, absurdo mesmo é ver a imprudência dos pais harleyros que, além de não usarem capacete, carregam seus harleyrinhos sem o mesmo. Isso não é caso de polícia, isso é caso de desamor.
Aqui na Lagoa vale tudo, tudo que se procurar fora do horário das 8h entre 12h e 14h entre 18h você não vai encontar. Gente, a manezada ainda faz o sono da beleza depois do almoço, benzadeus, que delícia! Serviço de 24 horas nem pensar. Aí, é que sinto saudades da minha Porto Alegre.
Muitos são os adultos que param nas ruas para conversar. Quando cruzamos com alguém conhecido ou não, sempre há um bom-dia ou uma boa-tarde que, muitas vezes, acaba ficando sem resposta, pois, nós forasteiros, logo nos esquivamos, não querendo dar mole para o azar, correr o risco de ser assaltado, de perder o relógio, o celular, os documentos para qualquer caça-fecho. Aí é que não tenho saudades da minha Porto Alegre.
Uma vez até me incomodei com a cachorrada que existe nas ruas e nas casas, isso que adoro os bichinhos, até tenho a Meggy. Só uma vizinha minha tinha 25, com os quais gastava todo seu dinheiro de aposentadoria. Bom, o dinheiro era dela, não compete a eu administrá-lo, mas compete a eu sim sentir-me ultrajada na quietude de minha choupana office... Ah, como eu gostaria de ter tido mais silêncio para ter lido Nicolescu, Moran e Pêcheux na época de meu mestrado.
Ainda da cachorrada, incomodada com os hábitos de seus donos tentei fazer uma campanha de conscientização para que cada dono, ao passear com seu cão levasse uma sacola de plástico, essas de supermercado, para juntar o cocô de seu pé-cascudo. Não deu em nada, até hoje continuamos abrindo caminhos entre a bosta e o chão divino-natural.
Por tudo isso, é que desembocar do morro da Lagoa e olhar para ela é adentrar num outro planeta, que se rasga numa paisagem singular, entre a imensidão de sua beleza e a nostalgia dos tempos que retratam a lembrança dos velhos costumes e a realeza do divino-natural, quando os sonhos chegam no máximo – um dia ainda vou morar na Lagoa.
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