quinta-feira, 16 de junho de 2011

Crônica - Antonio Luiz Schalata Pacheco


Floripa é bela, Florianópolis nem tanto

Floripa é um pedacinho de terra perdido no mar, um lugar paradisíaco com mais de cem praias, uma para cada gosto - bolso; literalmente, a Ilha da Magia. Florianópolis, uma realidade territorial insular - 97,23% – e continental, uma capital de estado que incorpora 10 mil novos habitantes a cada ano, com total acumulado superior a 420 mil. Mal distribuída entre 436,5 quilômetros quadrados, essa população ainda divide espaço com uma insustentável frota de 210 mil veículos automotores. Na alta temporada do verão esse quadro fica ainda mais complexo, pois a população dobra e o número de veículos aumenta assustadoramente. Experimentam-se situações caóticas em inúmeros pontos e o turismo que agrada alguns, acaba desagradando outros tantos.

Apesar da proximidade com o continente, de toda a extensa orla marítima e das águas calmas, a ilha quase não é acessada por essa via, isso é privilégio de poucos. Para uma minoria também está o acesso por via aérea; até mesmo porque o único aeroporto da região tem capacidade para não mais que um milhão de usuários por ano. Dessa forma, a principal via de comunicação é por meio da malha rodoviária.

Pode parecer paradoxal, mas o contato físico com o centro de decisões político-administrativas do estado de Santa Catarina fica restrito a algumas vias da BR282. Tal paradoxo não é o único episódio impactante do caminho de entrada da cidade. Os quase três quilômetros que rasgam a porção continental são invariavelmente lentos e feios. Não é raro levar mais de meia hora para percorrê-los, mal-estar que fica associado à obrigatória contemplação de suas margens, ilustradas por favelas dos mais diferentes graus – que vai desde barracos improvisados aos barracos elaborados do projeto Singapura. A propósito, o processo feio e sujo da favelização parece interessar, em muito, ao setor da construção civil da região - áreas impróprias, ocupadas por uma porção de casebres, acabam sucumbindo à construção de hipermercados, shopping centers etc.

Todo esse esforço de trekking automotivo nada ecológico culmina com a travessia de duas das suas três pontes, a Colombo Salles e a Pedro Ivo Campos. A terceira – ou primeira na cronologia, Hercílio Luz, mascote férrea de Floripa, está ocupada 24 horas por dia em ensaios fotográficos, sob a proteção perpétua da Fortaleza de Santana. Posando para os postais e repousando sobre a Y-Jurerê-Mirim dos Carijós, parece observar de longe suas ocupadíssimas colegas. Majestosas senhoras que, além de suportarem nos ombros todo o fluxo de veículos, ainda parecem suspender as barras de suas saias para não sujá-las nas fétidas, pardas e impróprias “águas” que lhes cobrem os pés – por certo, os nativos Carijós hoje dariam outro nome a esse estreito, talvez pequena boca d’água suja.

Essas mesmas “águas” banham as baías norte e sul, prolongamentos funcionais da região insular. A propósito, tais prolongamentos tornam a ilha uma quase-ilha, pois a mesma já não é mais cercada de água por todos os lados. São alguns quilômetros de quase-areia sem um único guarda-sol. Certo político conservador local, careca, falou que fincaria o primeiro deles ali um dia. Infeliz, foi vítima da maldição das promessas de campanha: coisa dita é coisa nunca feita.

É... Assim fica difícil avistar a tão “marqueteada” Floripa dos belos postais, mesmo depois de quase uma hora respirando Florianópolis. Talvez esse seja o motivo de despenderem tantos recursos para manterem de pé, a todo custo, a impo(t)nente Hercílio Luz.

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